Debate da Globo: quem ganhou e quem perdeu no último confronto?

O último debate entre os candidatos à Presidência da República, realizado pela TV Globo nesta sexta-feira (23/10), reuniu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e ficou marcado pela oscilação de bons momentos para cada lado. Especialistas consultados pela BBC News Brasil divergiram sobre quem venceu o confronto. O debate foi o último antes da votação do segundo turno, marcada para domingo (25/10).

Lula chegou com a tarefa de reverter o desempenho no primeiro turno, quando ficou em segundo lugar, atrás de Flávio — o senador teve 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do petista. Sua missão era conquistar indecisos e reduzir o apoio a Flávio. Segundo o Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil, que calcula com base em pesquisas registradas no TSE, Flávio aparece três pontos percentuais à frente de Lula nas intenções de voto para o segundo turno.

O presidente também buscava melhorar a impressão deixada no debate anterior, realizado no domingo (18/10) pela Band, quando seu desempenho foi considerado aquém do esperado por integrantes de sua própria campanha e por analistas. Flávio, por sua vez, entrou no debate com a missão de manter a vantagem conquistada no primeiro turno e conter a eventual recuperação de Lula no segundo turno.

As avaliações dos especialistas ouvidos pela BBC News Brasil indicam que o debate não definiu um vencedor claro. O professor de Ciência Política da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Eduardo Grin, viu uma pequena vantagem de Lula no conjunto da apresentação. A professora de Ciência Política da ESPM, Denilde Holzhacker, apontou uma vantagem ligeiramente maior para Flávio. O cientista político Murilo Aragão, da Arko Advice, também indicou benefício para o senador, enquanto Rafael Cortez, da Tendências, afirmou que nenhum dos dois se mostrou superior.

Para Grin, o impacto mais relevante pode ter ocorrido entre os indecisos, público-alvo de ambas as campanhas. “Lula ganhou os indecisos. Vi pesquisas qualitativas que sugerem que ele cumpriu o que precisava, sem goleada. Poderia ter sido mais objetivo no quarto bloco”, diz. Holzhacker teve leitura diferente: “os candidatos tiveram desempenhos consistentes, mas Flávio parece ter levado vantagem, especialmente pela apresentação de propostas e pelo controle do tempo”. Cortez, por sua vez, não identificou momento que desequilibrasse o confronto. “Foi um debate sem grandes oscilações. A reta final vai depender de como as campanhas explorarão pontos fracos que surgiram ao longo do programa.”

Para Aragão, a vantagem de Flávio se manteve por ter apresentado mais propostas para o futuro e explorado o desgaste do governo Lula, usando boas frases de efeito. “Como Flávio está na dianteira nas pesquisas, o debate foi melhor para ele.” Grin disse que Lula teve boa atuação nos três primeiros blocos, em que os temas eram previamente definidos. “Até o terceiro bloco, a estrutura beneficiou Lula. O presidente tem mais experiência administrativa, entregas para apresentar. Esse formato o ajudou.”

Cortez aponta que as estratégias refletiram as trajetórias políticas de Lula e Flávio: Lula tentou evidenciar a diferença de biografia e associar Flávio a críticas ao governo, enquanto Flávio buscou revelar uma agenda própria, com foco em segurança e economia. Holzhacker ressalta que Flávio manteve o foco em custo de vida, poder de compra, endividamento das famílias e empreendedorismo, ampliando o alcance de sua mensagem além da base bolsonarista. Ela também atribui ao candidato maior controle do tempo de fala.

Para Grin, Lula teve dois bons momentos: ao criticar Flávio por um comentário envolvendo Lula e “nove dedos” (referência a uma perda de dedo em acidente de trabalho na juventude) e ao questionar o suposto envolvimento de Lula com determinados temas. A leitura de Holzhacker aponta que Lula tentou transformar o debate em plebiscito sobre ele e Flávio, explorando a rejeição ao bolsonarismo e a capacidade do adversário de governar. Ela ressalta que Flávio, por sua vez, apresentou uma fala voltada ao eleitor, enfatizando uma visão de futuro.

Cortez afirma que o debate não alterou substancialmente o equilíbrio entre as campanhas, mas pode influenciar indecisos dependendo de como cada lado explorará temas de segurança pública e economia nos próximos dias. Grin sustenta que Lula foi mais bem-sucedido na percepção de experiência e conhecimento em políticas públicas, enquanto Flávio ganhou ao apresentar propostas concretas relacionadas a custos de vida e segurança. Holzhacker acrescenta que Lula enfrentou dificuldades com a dinâmica do debate, recorrendo a anotações em alguns momentos e deixando perguntas sem conclusão em certos trechos. Em síntese, os analistas veem um confronto que não definiu o resultado, mas que pode influenciar o caminho de campanha até o voto final.

Fonte: Terra Brasil

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