Seja Flávio Bolsonaro (PL) ou Luiz Inácio Lula da Silva (PT) o eleito neste domingo (25/10), a economia deverá ser um “calcanhar de Aquiles” para o novo governo.
Quem assumir em 5 de janeiro terá que atender à cobrança do mercado financeiro por ajuste nas contas públicas, enfrentar a insatisfação da população com o custo de vida e o endividamento recorde, tudo isso em um cenário de crescimento econômico projetado para ser mais fraco em 2027.
Economistas consultados pela BBC News Brasil apontam que nenhum dos dois candidatos apresentou planos claros para enfrentar esses desafios, e esperam respostas mais concretas após a eleição, quando a equipe econômica do futuro governo for definida.
“Um governo bem‑sucedido não será aquele que apresentar os melhores números nesses quatro anos, mas aquele que deixar a economia em condições melhores para crescer nos anos seguintes”, afirma Bruno Imaizumi, economista da consultoria 4intelligence.
Para Felipe Salto, economista‑chefe da Warren Investimentos e ex‑diretor‑executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado, o essencial é que o eleito mantenha o senso de urgência e apresente um plano objetivo para a economia e as contas públicas “na primeira hora”, algo que ficou ausente do debate eleitoral.
A dívida bruta do governo geral – que inclui a União, a Previdência, estados e municípios – atingiu R$ 11,1 trilhões em agosto, equivalente a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo o Banco Central, configurando o maior nível desde a pandemia.
Com a dívida alta e sem perspectiva de estabilização em relação ao PIB nos próximos anos, o Banco Central tem dificuldade de reduzir a taxa de juros, o que encarece investimentos e empréstimos, limitando o crescimento econômico e afetando a vida dos brasileiros.
Flávio Bolsonaro tem dado sinais ambíguos sobre como pretende lidar com a questão. Por um lado, fala em “tesouraço” no gasto público e nos impostos, e seus assessores sugerem um ajuste fiscal de 1,5% a 2% do PIB nos primeiros 18 meses, o que representaria cortes de R$ 190 bi a R$ 250 bi. Por outro, promete manter o reajuste real do salário mínimo, não desvincular aposentadorias e benefícios sociais do salário‑base, nem reduzir os pisos constitucionais da saúde e da educação, defendendo que o ajuste virá de cortes em ministérios, cargos comissionados e despesas administrativas.
Lula, por sua vez, já incluiu em seu pacote eleitoral despesas fiscais que podem gerar quase R$ 200 bi até 2030, segundo cálculo da Warren Investimentos, e sustenta que o crescimento da economia e a ampliação da arrecadação são o caminho para reduzir a dívida pública, sem se comprometer com cortes de despesas.
Na avaliação dos economistas, Flávio pode contar com maior condescendência do mercado no início de seu governo, devido à experiência do governo de Jair Bolsonaro, enquanto Lula enfrenta desgaste de credibilidade após quatro anos de governo sem controle de gastos, agravado por promessas eleitorais que ampliam a despesa e reduzem a arrecadação.
Salto observa que as promessas de Flávio não fecham, pois não é possível reduzir a carga tributária mantendo o Estado de bem‑estar previsto na Constituição de 1988. Cortes em ministérios e venda de ativos, segundo ele, não gerarão economia suficiente para transformar o déficit primário em superávit, que exigiria ajustes nos gastos obrigatórios e nas isenções fiscais.
Rafaela Vitória, economista‑chefe do Banco Inter, alerta que, se Lula for reeleito, deverá enfrentar deterioração das condições financeiras, com juros futuros e dólar em alta, devido à descrença do mercado em sua capacidade de fazer ajuste fiscal, o que pressionaria a inflação e poderia forçar medidas impopulares, embora ainda diferentes do “cavalo de pau” adotado por Dilma Rousseff em 2015.
Fonte: BBC News Brasil
