Como uma torta de chocolate deu origem a um dos hotéis mais famosos de Viena

A história do Hotel Sacher começou com uma pergunta que ouvi durante a visita a Viena: o que veio primeiro, o hotel ou a torta? A resposta é a torta, por uma diferença de 44 anos.

Em 1832, o príncipe Klemens von Metternich solicitou o preparo de uma sobremesa especial para seus convidados. Como o responsável pela cozinha estava adoentado, a tarefa ficou nas mãos de Franz Sacher, então um aprendiz de apenas 16 anos. A combinação de bolo de chocolate, damasco em geleia e cobertura de chocolate entrou para a história austríaca.

Décadas depois, em 1876, Eduard Sacher, filho de Franz, transformou o sucesso da receita em um hotel de luxo em frente à Ópera Estatal de Viena. Em 2026, o Hotel Sacher celebra 150 anos, marco que ajuda a explicar a continuidade do endereço em uma indústria que frequentemente confunde tradição com imobilidade.

O Sacher preserva seu passado, mas não vive como um museu.

Durante a estadia, fui extremamente bem recebida por toda a equipe, com destaque para Andreas Keese, gerente-geral do hotel.

Em um lugar cercado de histórias, obras de arte, celebridades e símbolos imperiais, o que mais chama a atenção é justamente o elemento menos visível na vitrine: a hospitalidade.

Atualmente, o hotel possui 152 quartos e suítes, distribuídos em seis edifícios.

As diferenças de altura entre os pavimentos criam corredores interessantes e uma planta que nem sempre obedece à lógica dos hotéis contemporâneos. Para a equipe que transporta bagagens, isso pode exigir trabalho extra. Para o hóspede, contribui para a sensação de que nenhum quarto é exatamente igual ao outro.

A localização é parte essencial da experiência. O Sacher fica no Primeiro Distrito, no centro histórico de Viena, em frente à Ópera e a poucos minutos de lugares como Albertina, Hofburg e a Catedral de Santo Estêvão. Ao caminhar pela Ringstraße, avenida criada no espaço das antigas muralhas da cidade, o visitante encontra alguns dos principais edifícios públicos e culturais da capital.

Eduard percebeu cedo o valor daquele endereço. Foi Anna Sacher, com quem ele se casou em 1880, quem transformou o hotel em um ponto de encontro internacional. Quando Eduard morreu, em 1892, Anna assumiu oficialmente a direção. Era um período em que as mulheres austríacas ainda não tinham direito ao voto, e ainda assim ela comandou um dos hotéis mais importantes de Viena com personalidade suficiente para atravessar gerações.

Anna ficou conhecida pelos charutos, pelos buldogues franceses e por uma ideia de hospitalidade que combinava disciplina, atenção aos detalhes e habilidade social. Também adotou medidas avançadas para seus tempos, entre elas benefícios de aposentadoria para funcionários, de acordo com o relato apresentado durante a visita.

Seu talento para relações públicas aparece em duas tradições mantidas pelo hotel: a galeria de fotografias de hóspedes ilustres e as toalhas de mesa assinadas por personalidades que passaram pela casa. Anna mandava bordar as assinaturas para preservá-las. Uma das toalhas históricas reúne cerca de 400 nomes, e o acervo continua crescendo. As paredes ajudam a contar essa história sem transformar o hotel em um santuário de celebridades.

Há atores, músicos, políticos e criadores de diferentes épocas. John Lennon e Yoko Ono realizaram no Sacher, em 1969, uma de suas ações pela paz, aparecendo diante da imprensa dentro de um saco branco. Em outros registros aparecem nomes como George Clooney, Goldie Hawn, Kate Moss e Emma Thompson.

Mas a continuidade do Sacher não depende apenas de quem se hospedou ali. Desde 1934, o hotel pertence à família Gürtler‑Winkler. Atualmente, Alexandra e Georg Winkler representam a geração familiar à frente do negócio. Alexandra participa de perto das decisões relacionadas à arquitetura e aos interiores. Georg acompanha especialmente os padrões operacionais e de alimentos e bebidas, incluindo detalhes que parecem pequenos, como o posicionamento e o polimento dos talheres.

Esse envolvimento é relevante em um mercado no qual boa parte da hotelaria de luxo pertence a grandes grupos internacionais. O Sacher continua sendo um dos poucos hotéis cinco estrelas superior de Viena de propriedade privada e gestão familiar. É membro da The Leading Hotels of the World e integrou a lista The World’s 50 Best Hotels de 2025.

Se o hotel nasceu da torta, a torta continua sendo uma operação de escala considerável. A Original Sacher-Torte é preparada artesanalmente em 34 etapas. A receita permanece em segredo, conhecida por um grupo restrito de pessoas, e combina ingredientes que incluem ovos frescos de galinhas criadas ao ar livre e chocolates produzidos especialmente para a casa. O bolo é servido com chantilly sem açúcar, cuja função não é meramente decorativa: ele equilibra a intensidade do chocolate e a densidade da massa.

Desde 2000, a produção acontece em uma manufatura própria no sul de Viena. Cerca de 360 mil tortas são produzidas por ano, quase mil unidades por dia, com aumento de demanda no período do Natal. As tortas são vendidas nos cafés e lojas da marca e enviadas a clientes em diferentes partes do mundo, acomodadas em caixas de madeira.

Os números mostram como um produto ligado à corte do século XIX se transformou em ativo internacional. O segredo não está apenas na receita, mas na capacidade de controlar a produção, proteger a identidade da marca e converter um doce regional em símbolo global.

O hotel utiliza a torta como plataforma para iniciativas culturais e sociais. Na Sacher Artists’ Collection, artistas convidados criam intervenções para a caixa de madeira. Cada edição se limita a mil unidades, e a renda líquida é destinada a uma causa beneficente escolhida em conjunto com o artista. A coleção já contou com participações de nomes como Hermann Nitsch, Xenia Hausner, Gottfried Helnwein e Georg Baselitz.

Os bastidores revelam, com mais clareza, o significado da hospitalidade no Sacher. Durante a visita, ouvi histórias que parecem extravagantes, mas que mostram a engrenagem necessária para operar um hotel desse porte.

Na noite do Baile da Ópera de Viena, entre 450 e 500 convidados podem participar do jantar realizado no hotel. Diferentes ambientes se transformam rapidamente para acomodar o evento.

Como o código de vestimenta é rigoroso, a equipe também precisa resolver emergências. Em uma ocasião, um hóspede descobriu que não tinha os sapatos apropriados e calçava um número difícil de encontrar.

Os concierges localizaram o modelo a tempo. Em outra, uma hóspede estava com um vestido que não atendia às regras de comprimento.

Uma integrante da equipe, percebendo que tinha altura e tipo físico semelhantes, foi às compras, enviou fotografias das opções e encontrou uma roupa adequada para que a cliente não perdesse o baile.

Há ainda o caso de um hóspede que desejava levar tortas ao filho no dia seguinte para outro destino. Como não havia tempo para o envio convencional, um membro da manufatura embarcou pessoalmente em um avião levando dez unidades.

Essa é a cultura que sustenta a casa há 150 anos: a torta atrai filas, cruza fronteiras e permanece como um dos souvenirs mais reconhecíveis de Viena. O hotel continua relevante porque entendeu que patrimônio de verdade só tem valor quando permanece vivo, em diálogo com tradição e inovação, oferecendo uma experiência que vai além da nostalgia imperial.

Em frente à Ópera Estatal de Viena, Primeiro Distrito. Reservas: sacher.com. O hotel possui 152 quartos e suítes. As tarifas são dinâmicas. Recomenda-se consultar as datas da viagem.

A Original Sacher-Torte é servida no café com chantilly sem açúcar. Como o endereço costuma atrair muitos visitantes, vale reservar ou evitar horários de maior movimento. Informações: Café Sacher Wien.

Kärntner Strasse 38, 1010 Viena. Aberto diariamente, das 9h às 22h, conforme consulta realizada em setembro de 2026. As tortas também estão disponíveis pela loja oficial.

Fonte: Seu Dinheiro

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