Em Capixaba, aracy de Teixeira Lyra comparece à escola Américo de Oliveira, na zona norte do Rio, três vezes por semana. Ela se levanta cedo, chega ao colégio por volta das 9h e, antes das 14h, já retorna para casa descansar. “Ainda me sinto jovem para trabalhar”, brinca, prestes a completar 102 anos em novembro.
A rotina se repete nas segundas, quartas e sextas‑feiras. Aracy dirige a instituição que fundou há 73 anos, em 1953, em homenagem ao pai, Américo de Oliveira, a quem admira pela dedicação à educação.
“Gosto muito de dar aula, de conversar, orientar, dirigir crianças e fazer delas pessoas responsáveis para que as vidas que vão atravessar sejam boas”, afirma a educadora centenária à reportagem.
A escola está situada em Marechal Hermes, onde Aracy é celebridade local e costuma receber homenagens. Ela formou gerações de famílias do bairro e inspirou alunos que hoje são colegas de profissão.
Hoje Aracy se locomove com a ajuda de um andador, mas mantém voz firme e raciocínio articulado. Para ela, o trabalho é uma “obra de Deus” e cuidar da escola que fundou não a deixa cansada.
Embora não esteja mais à frente das salas de aula, suas tarefas se restringem a questões administrativas e orientações pedagógicas. Sempre que pode, abre espaço no dia para receber os alunos em sua sala e dar conselhos a quem precisa.
Ela recorda um caso em que um jovem não fazia os deveres porque precisava acompanhar a mãe em outras atividades. Ao conversar com a mãe, sugeriu: “Sabe quem está cuidando das crianças hoje? As avós.” A diretora ainda criticou o excesso de tarefas que sobrecarregam as mulheres, afirmando: “Elas estão muito sacrificadas. Além dos trabalhos dentro de casa, que são imensos, elas estão na rua trabalhando também.”
Nos dias em que não está fora do Américo de Oliveira, Aracy frequenta o centro espírita Maria Angélica às terças‑feiras e, às quintas, sessões de fisioterapia e hidroterapia. Ela segue uma dieta adventista, consumindo apenas peixe, legumes e saladas, sem acrescentar sal ou beber líquidos durante as refeições, e ressalta: “Sem uma boa alimentação não se chega a lugar nenhum.”
Nascida em 1924 em Vitória, Espírito Santo, Aracy escolheu a docência quando as opções para mulheres eram limitadas a enfermagem ou ensino. Mudou‑se para o Rio, começou a dar aulas no quintal de casa em Marechal Hermes para estudantes que almejavam o Colégio Militar, e seu filho Ubiratan Lyra, hoje também diretor da escola, foi um dos primeiros alunos. Com o reconhecimento dos resultados, ampliou as turmas, passou a oferecer ensino básico e, em 1953, fundou a escola Américo de Oliveira, batizando‑a em homenagem ao pai: “O homenageei pela educação que ele nos deu. Educação rigorosa, exigente, mas também com muito amor. Devo muito a ele e à minha mãe tudo o que eu recebi”.
Ubiratan abandonou a carreira de engenheiro da Marinha no início da década de 1990 para dedicar‑se integralmente à direção e coordenação do colégio. “Peguei experiência com a pessoa que entende, né”, reconhece, acrescentando que ainda aprende com a mãe. Ele elogia o caráter, a dignidade e a força de vontade de Aracy, dizendo que não é fácil chegar aos 101 anos – vai fazer 102 em novembro – com tamanha energia. Aracy, por sua vez, descreve o filho como “excelente, (tem muita) dedicação”, agradece o apoio e afirma que, com a presença dele, “está tudo completo”.
Fonte: Estadão Educação
