No Dia das Crianças, comemorado nesta segunda-feira (12), os números da insegurança alimentar no Acre chamam atenção para uma realidade que vai além da troca de presentes e das comemorações. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que 26,9% dos moradores do estado viviam em domicílios com algum grau de dificuldade no acesso regular à alimentação em 2024.
O levantamento faz parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), segundo a qual 73,1% da população acreana vivia em residências com segurança alimentar. Os demais moradores estavam em lares classificados em situação de insegurança alimentar, condição que pode variar da preocupação com a falta de comida até a privação efetiva de alimentos.
Os dados abrangem toda a população, sem distinção de idade. Portanto, não permitem determinar quantas crianças acreanas passam fome, mas ajudam a dimensionar as dificuldades enfrentadas por famílias que precisam garantir alimentação, moradia, transporte e outras necessidades básicas com recursos limitados.
Dificuldades à mesa
A insegurança alimentar é dividida em três níveis. No grau leve, as famílias enfrentam incerteza ou preocupação quanto à disponibilidade de comida. No moderado, há redução da quantidade de alimentos consumidos. Já na condição grave, a privação pode ser mais intensa, chegando a situações de fome.
Durante a infância, essas dificuldades exigem atenção especial. A alimentação adequada é essencial para o crescimento, a saúde e o desenvolvimento físico e cognitivo. A falta de nutrientes pode prejudicar o aprendizado e comprometer o desenvolvimento das crianças.
O problema, porém, não se limita à ausência de comida. Mesmo famílias que conseguem manter as refeições diariamente podem enfrentar dificuldades para comprar carnes, frutas, verduras e outros alimentos necessários a uma dieta equilibrada.
Em muitos lares, o dinheiro destinado à alimentação também precisa cobrir despesas com água, energia elétrica, aluguel, medicamentos e material escolar. Quando a renda não é suficiente, a quantidade ou a variedade dos produtos comprados pode acabar reduzida.
Direitos comprometidos
Outro levantamento revela a dimensão da vulnerabilidade enfrentada pela população infantojuvenil acreana. Um estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), elaborado com dados de 2022, identificou que 83,9% das crianças e adolescentes de até 17 anos no Acre enfrentavam pelo menos uma privação de direitos.
O estudo considera aspectos como renda, educação, moradia, saneamento básico e acesso à água. O percentual não representa a quantidade de crianças que passam fome, mas indica que grande parte da população nessa faixa etária convivia com alguma deficiência nas condições necessárias ao desenvolvimento.
As dificuldades podem ser ampliadas em comunidades rurais e localidades isoladas do Acre, onde as distâncias e as condições de transporte representam obstáculos ao abastecimento. A extensão desses problemas, entretanto, depende das características de cada município e exige levantamentos específicos.
Proteção à infância
A alimentação escolar, o acompanhamento nutricional nas unidades de saúde e os programas de assistência social estão entre os instrumentos de proteção às crianças em situação de vulnerabilidade.
A efetividade dessas medidas depende da capacidade dos serviços públicos de identificar as famílias que necessitam de atendimento e garantir o acesso aos benefícios e às ações de acompanhamento.
Embora os indicadores do IBGE e do Unicef tratem de questões distintas, ambos mostram dificuldades enfrentadas por parte da população acreana no acesso a condições básicas de vida.
Neste Dia das Crianças, os números colocam em evidência um desafio que permanece além das comemorações: garantir que a renda familiar e o local de moradia não sejam obstáculos ao direito de crianças e adolescentes a uma alimentação adequada e a condições dignas de desenvolvimento.
