Pacote de Lula para estimular economia tem impacto abaixo do esperado

A proposta de impulsionar a atividade econômica, que incluía aumento de renda e ampliação de crédito, previa impacto superior a R$ 200 bilhões, o que corresponde a cerca de 1,5% do PIB. Na prática, economistas consultados pelo Estadão/Broadcast estimam que o efeito efetivo ficou entre R$ 90 bilhões e R$ 130 bilhões.

A medida de isenção do Imposto de Renda para trabalhadores que recebem até R$ 5 mil foi acompanhada por linhas especiais de financiamento e pelo programa Desenrola, que visa renegociar dívidas e reintroduzir consumidores no mercado de crédito. Contudo, o alto nível de endividamento dos brasileiros e a cautela dos bancos limitaram a absorção dessas iniciativas.

Os ministérios responsáveis pelos pacotes de crédito ressaltaram resultados positivos em outros setores, como o crédito habitacional, que já gerou 290 mil contratos do Minha Casa, Minha Vida e 155,1 mil operações do programa Reforma Casa Brasil.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou, na terça‑feira (1), queda de 0,4% no consumo das famílias no segundo trimestre, o que levou economistas a revisar para baixo as projeções de crescimento e a alertar para risco de recessão técnica.

Segundo Sergio Vale, economista‑chefe da MB Associados, o Banco Central começa a enfrentar a política fiscal expansionista, e as taxas reais de juros, as mais altas em duas décadas, podem provocar desaceleração mais acentuada no próximo ano.

Leonardo Mendes, da Manchester Investimentos, aponta que parte relevante dos estímulos foi consumida no pagamento de dívidas, reduzindo o efeito sobre o consumo adicional. Ele estima que o conjunto de medidas contribua com cerca de um ponto percentual ao crescimento do PIB, bem abaixo dos 1,4 ponto percentual projetados.

Ítalo Franca, especialista em contas públicas do Santander, concorda que o impacto real das medidas será bem menor que o potencial de R$ 220 bilhões (1,5% do PIB) calculado pelo banco, funcionando mais como amortecedor da perda de ritmo do que como motor de reaceleração.

A linha de crédito destinada à troca de veículos por taxistas e motoristas de aplicativo, que deveria reproduzir o efeito da isenção de IR, teve adesão limitada: apenas 13% dos R$ 30 bilhões disponíveis foram efetivamente convertidos em vendas. Problemas de compatibilidade entre bancos financiadores e o BNDES, além da aversão ao risco, dificultaram a operação.

A Febraban, entidade que representa os bancos, reconhece que fundos garantidores mitigam parte do risco, mas enfatiza que a aprovação de cada financiamento depende da política interna de cada instituição, que avalia capacidade de pagamento, nível de endividamento e peso da prestação no orçamento do cliente.

Enilson Sales, presidente da Anef, destaca que, ao contrário do segmento de caminhões, onde o programa Move Brasil teve boa adesão, o financiamento de automóveis sofreu com a falta de integração ao BNDES e com a necessidade de ajustes operacionais que os bancos não estavam dispostos a fazer para uma medida provisória de curta duração.

Fonte: Estadão Economia

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