O retorno do El Niño deve provocar efeitos bastante distintos entre os setores da economia brasileira.
A XP Investimentos divulgou que, enquanto algumas cadeias produtivas podem se beneficiar das chuvas acima da média no Sul, outras enfrentarão perdas de produtividade, aumento de custos e pressão sobre os resultados. O estudo ressalta que investidores passarão a avaliar cada vez mais a capacidade de adaptação das empresas às mudanças climáticas.
No agronegócio, o risco concentra‑se no Maranhão, Tocantins, Piauí, Bahia e em partes do Centro‑Oeste, onde o fenômeno costuma reduzir as precipitações nas fases críticas da safra. O Rio Grande do Sul, ao contrário, pode registrar maior volume de chuvas, favorecendo a produção. A soja demonstra maior resiliência nacional, enquanto o milho, sobretudo a safra de segunda safra, aparece como a cultura mais vulnerável. A cana‑de‑açúcar também está entre as commodities sensíveis. Entre as empresas, a XP destaca a 3tentos (TTEN3) como a principal beneficiária, graças à forte presença no Rio Grande do Sul. Já a SLC Agrícola (SLCE3) e a Brasil Agro (AGRO3) figuram entre as mais expostas aos riscos climáticos.
No setor elétrico, as chuvas acima da média previstas para o Sul e parte do Sudeste devem elevar os níveis dos reservatórios hidrelétricos, melhorando o armazenamento de água e aliviando o preço da conta de luz no curto prazo. A XP aponta a Auren Energia (AURE3) como uma das principais beneficiadas, pois possui posição vendida em energia, o que favorece seus resultados em cenário de queda de preços. Em sentido oposto, a Axia (AXIA3) é considerada vulnerável, já que cerca de 19% de seu balanço de energia para 2026 permanece descontratado, expondo a empresa à redução dos preços no mercado de curto prazo (MCP), cujo preço de referência é o PLD.
Para o varejo, a principal ameaça vem da inflação dos alimentos, que pode reduzir o poder de compra das famílias, pressionar o consumo de bens não essenciais e dificultar a recuperação do setor. Supermercados e atacarejos, porém, podem ganhar com o aumento dos preços, e a XP destaca o Assaí (ASAI3) como empresa bem posicionada. No segmento de moda, temperaturas mais altas podem acelerar a troca de coleções e diminuir a necessidade de remarcações de inverno.
Nos transportes, o risco está na redução do nível dos rios causada pelas alterações no regime de chuvas. Enquanto algumas regiões recebem mais precipitação, outras enfrentam secas que diminuem a profundidade das hidrovias, dificultando a navegação no rio Tapajós e na hidrovia Paraguai‑Paraná. Isso pode encarecer e atrasar o escoamento da produção agrícola destinada à exportação. A Hidrovias do Brasil (HBSA3) aparece como a empresa mais exposta, enquanto a Rumo (RAIL4) pode ganhar competitividade caso o transporte hidroviário sofra restrições.
No segmento financeiro, o Banco do Brasil (BBAS3) tem a maior probabilidade de ser impactado, devido à elevada exposição da carteira de crédito ao agronegócio, que inclui soja, milho e pecuária. Uma redução da produtividade agrícola poderia gerar inadimplência e atrasar a recuperação da qualidade da carteira. Nos demais bancos, os efeitos diretos tendem a ser limitados.
Diante desse cenário, a XP recomenda que investidores considerem a resiliência da infraestrutura, a diversificação das cadeias de suprimentos e o planejamento para eventos extremos como critérios decisivos para a competitividade das empresas.
Fonte: Poder Economia
