Armínio Fraga, ex‑presidente do Banco Central, afirmou que a economia brasileira atravessa uma crise estrutural grave e que há risco concreto de recessão em 2027. A entrevista concedida a Márcio Juliboni, da Veja, foi publicada nesta sexta-feira (24).
Para o economista, a situação fiscal do país não é sustentável. O governo tem encurtado o perfil da dívida, o que ele descreve como sinal claríssimo de dificuldade. Fraga descreveu o quadro geral como desastroso e “uma verdadeira vergonha”.
Ele alertou que o cenário de recessão para 2027 é provável, já que o mercado de crédito apresenta sinais preocupantes. Recomenda que empresas e pessoas preservem o caixa e evitem novos empréstimos, ressaltando que o crédito funciona apenas como paliativo de custo fatal.
Fraga destacou que grande parte da população não tem condições de planejamento financeiro e que o crescimento per capita acumulado desde 1994 foi de apenas 1,3%, índice que classificou como muito modesto, quase medíocre.
O ex‑presidente contestou a ideia de que o Brasil já pratica austeridade fiscal suficiente, questionando a redução do gasto público de um quarto do PIB para um terço nos últimos 40 anos. Argumentou que falta prioridade, não apenas recursos. Os gastos tributários aparecem como um dos alvos centrais do diagnóstico. Somados subsídios e benefícios fiscais federais e estaduais, o total chega a 9% do PIB. Fraga defendeu a redução desse total em pelo menos três pontos percentuais. Também apontou distorções tributárias: “Hoje, alguém pode ser tributado em 8% e outra pessoa, com a mesma renda, em 27%”.
Fraga atribuiu a responsabilidade fiscal aos três Poderes, com maior peso no Executivo e no Legislativo, ressaltando que cortes de gastos requer negociação com o Legislativo. “O maestro dessa orquestra é o Executivo, mas não se pode atribuir a ele toda a responsabilidade”, disse.
O economista também criticou o arcabouço fiscal do governo. “A situação fiscal é bastante grave. Embora o governo tenha criado o arcabouço fiscal, chutou o pau da barraca logo de cara, e os resultados estão aí, na forma de juros altos”, disse. Fraga comparou os juros elevados a uma “febre persistente” e destacou que as taxas longas também estão em patamar elevado.
Cenário eleitoral e perspectivas para 2027
Para Armínio Fraga, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é o favorito para as eleições, mas advertiu sobre os riscos de uma repetição do padrão fiscal observado no governo de Dilma Rousseff (PT).
“Há uma certa semelhança com o governo de Dilma Rousseff, quando foi feito um grande esforço para vencer a eleição, estourando as contas de uma maneira espetacular”, disse.
Para o economista, o país precisaria de um governo “do estilo Lula um”, não do atual perfil do 3º mandato. Sobre uma eventual candidatura de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Fraga foi crítico ao recordar o governo do pai. “Foi um governo que não apoiou a vacinação, facilitou a venda de armas e munições e não esteve à altura dos desafios sociais do país”, afirmou.
O economista citou Ronaldo Caiado (União) e Romeu Zema (Novo) como possíveis alternativas que poderiam contar com apoio do Congresso. Armínio Fraga declarou não ter intenção de apoiar formalmente nenhum candidato nas eleições presidenciais de 2026. Em março deste ano, ele havia anunciado apoio à pré-candidatura de Eduardo Leite (PSD), governador do Rio Grande do Sul, que não irá disputar o Planalto. “Eu me expus muito nos últimos anos e não me arrependo. Sou partidário de procurar o melhor voto possível para o Brasil”, disse.
Fonte: Poder Economia
