Vânia de Souza Borges recebeu, às 1h13 do dia 23 de março de 2024, uma ligação do filho, Rafael Borges Amaral, de 26 anos. O jovem informou que estava na casa da avó, em segurança, e a conversa durou poucos minutos. Na manhã seguinte, a mãe foi informada da morte de Rafael, que ela atribui ao vício em apostas online.
Rafael era descrito como um homem trabalhador, honesto e “pé no chão”. Após concluir o ensino médio, abriu um lava‑rápido em um posto de combustível em Uberlândia, Minas Gerais, e conquistou boa clientela. Segundo a mãe, ele era alegre, comunicativo e não tinha antecedentes de violência.
Ele passou a ficar horas no celular, isolado, e começou a negar a gravidade da situação, alegando que poderia ganhar muito dinheiro com as apostas. A mãe tentou alertá‑lo, mas ele não aceitava a ajuda.
A dependência levou Rafael a vender a moto e as ferramentas que usava no negócio, além de perder o contrato do lava‑rápido por faltas frequentes. Com a situação financeira deteriorada, ele se mudou para a casa da avó após desentendimentos com a mãe e passou a trabalhar até 15 horas por dia, buscando recursos para apostar.
Nos últimos meses, o jovem chegou a interromper o uso do celular por dois meses, pretendendo juntar dinheiro para reabrir a empresa. Contudo, poucos dias antes da morte, comprou outro aparelho e recaiu no jogo. Em um áudio enviado a um amigo, ele declarou estar sem dinheiro, sem controle e isolado, afirmando que “perdeu tudo que tinha”.
Na madrugada do dia 23 de março, Rafael enviou uma mensagem de despedida à mãe, repetindo “te amo” antes de efetuar uma última transferência de R$ 30 para a plataforma de apostas. Pouco depois, a avó ligou para Vânia informando o ocorrido, e a mãe descreveu o momento como “choque total”.
Ao investigar o caso, Vânia encontrou sua carta entre os documentos da CPI das Bets, revelando que o problema não era isolado. Ela reuniu e entregou e‑mails, relatos e demais provas à Promotoria Criminal de Uberlândia, que encaminhou a demanda às promotorias de Defesa do Consumidor e da Saúde. Em maio de 2025, o Ministério Público de Minas Gerais arquivou a investigação.
Recentemente, o MP entrou em contato com Vânia e manifestou interesse em reabrir o caso, com base no material já apresentado. O Ministério Público de Minas informou que a Promotoria de Defesa da Saúde não tem competência para o assunto e aguarda posicionamento da Promotoria de Defesa do Consumidor. O Ministério da Justiça e Segurança Pública declarou que a demanda está em apuração.
Vânia Borges conclama à responsabilização criminal e civil de influenciadores que promovem casas de apostas e das próprias empresas de apostas, afirmando que espera que o caso do filho sirva de base para punições e para a prevenção de novas tragédias.
Fonte: Terra Saúde
