O campo de golfe que virou refúgio após devastação na Venezuela

A região noroeste de La Guaira, em Caraballeda, apresenta um cenário de destruição que ultrapassa a compreensão. Os terremotos ocorridos na última quarta‑feira (24/6), com magnitudes de 7,2 e 7,5 separados por apenas 39 segundos, provocaram o colapso de inúmeros edifícios, formando fileiras de concreto e metal retorcido.

O antigo Caraballeda Golf & Yacht Club, antes símbolo de luxo, foi convertido em um complexo de emergência. Um hospital improvisado ocupa parte dos gramados, atendendo os feridos enquanto pilhas de roupas doadas e caixas de ajuda humanitária se acumulam ao redor.

Ao lado de uma pequena lagoa, o terreno foi adaptado para pouso de helicópteros que trazem suprimentos e equipes de resgate de outros estados e do exterior. Outra seção do campo serve de abrigo para centenas de famílias que perderam tudo.

Milagros González, moradora do conjunto habitacional Caribe, relatou que conseguiu fugir com duas filhas pequenas e duas senhoras idosas antes que seu prédio desabasse. ‘Saímos vivas, o prédio está inabitável, mas estamos gratas a Deus’, afirmou.

Do outro lado da rua, um edifício chamado Hoyo Cinco ainda abriga pessoas que não puderam ser retiradas, pois o modo como o prédio colapsou gera medo de novos desabamentos. González descreve noites de insônia, acordando tonta e acreditando que o tremor continua, apesar de receber acompanhamento psicológico.

As ruas ao redor do clube estão repletas de escombros, rachaduras e o som constante de máquinas pesadas e escavadeiras que trabalham na remoção dos destroços. O calor úmido, que chega a quase 30 °C, torna o ambiente sufocante, exaurindo os trabalhadores que permanecem em serviço há dias.

Um odor persistente, descrito por alguns moradores como ‘cheiro de sangue’, mistura-se ao pó, concreto e matéria orgânica, obrigando o uso de máscaras para respirar. Olhares perdidos e expressões tensas marcam os venezuelanos que circulam pelas vias, carregando uma tristeza visível antes mesmo de compartilharem suas histórias.

O Ministro do Interior da Venezuela, Diosdado Cabello, confirmou que Caraballeda está entre as áreas mais afetadas pelos terremotos, que até a tarde de segunda‑feira (29/6) deixaram pelo menos 1.700 mortos e milhares de desabrigados. A ONU estima cerca de 50 mil pessoas desaparecidas, número que se destaca especialmente em Caraballeda.

Equipes de resgate internacionais provenientes do México, Espanha, Catar, Estados Unidos e Reino Unido chegaram nos últimos dias para reforçar as buscas. Contudo, o número de estruturas ainda não removidas evidencia a insuficiência da ajuda externa.

Um bombeiro que atua na zona, que prefere não se identificar, observou dezenas de prédios onde nem uma única pedra foi retirada. ‘Não há gente suficiente e é muito provável que ainda haja pessoas presas nos escombros’, disse.

A sociedade civil tem desempenhado papel crucial. Moradores e voluntários de La Guaira e de outras regiões mobilizaram-se para distribuir alimentos, água e suprimentos, além de colaborar nas buscas com recursos limitados, muitas vezes usando as próprias mãos.

Jesús Andueza, motorista de ônibus de 64 anos, contou que estava cochilando quando o primeiro tremor ocorreu. ‘Foi horrível. Graças a Deus a casa não desabou, mas tremeu’, relatou, acrescentando que o impacto psicológico foi intenso. ‘Qualquer barulhinho nos deixa nervosos, é horrível’.

Com medo de retornar à sua residência, Andueza passou a dormir no campo de golfe, onde busca fraldas para a filha e alivia a dor nos pés inchados. ‘É melhor ficar aqui’, afirmou.

Fonte: BBC News Brasil

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