Meses antes do atentado que matou duas funcionárias do Instituto São José, em Rio Branco, o Acre já aparecia em levantamentos nacionais relacionados à violência no ambiente escolar.
Os dados constam no 4º Boletim Técnico “Escola que Protege”, divulgado neste ano pelo Ministério da Educação (MEC), Ministério dos Direitos Humanos e Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O relatório reúne indicadores sobre bullying, ameaças, ataques extremos, violência interpessoal e sensação de insegurança nas escolas brasileiras.
Entre os dados apresentados, 2,7% das escolas acreanas relataram interrupção do calendário letivo em 2023 por causa de episódios de violência. Outro indicador aponta que 1,8% das escolas do Acre registraram ao menos um caso de tiroteio ou bala perdida no mesmo período.
O boletim também mostra que a violência cotidiana já está disseminada nas instituições de ensino do país. Em 2023, 67,5% dos diretores escolares brasileiros afirmaram ter registrado episódios de bullying em suas unidades.
Outro levantamento citado pelo MEC aponta que 12,6% das escolas brasileiras sofreram ameaça ou tentativa de ataque nos 12 meses anteriores à pesquisa realizada em 2023 — o equivalente a mais de 16 mil instituições de ensino.
A região Norte aparece entre as mais afetadas por interrupções de atividades escolares causadas por violência nos territórios onde as escolas estão inseridas, cenário associado a vulnerabilidade social, presença de facções criminosas e menor estrutura de proteção escolar, segundo análises citadas no relatório.
Crescimento de ameaças e radicalização online
O estudo também apresenta um panorama nacional sobre violência extrema em instituições de ensino.
Segundo o boletim, entre 2001 e 2025, o Brasil registrou 47 ataques em escolas, com 177 vítimas, sendo 56 mortes e 121 feridos.
O relatório aponta que fatores como radicalização digital, discursos de ódio, comunidades extremistas online e acesso facilitado a armas de fogo dentro de casa aparecem entre os principais elementos associados aos ataques.
De acordo com o levantamento, armas de fogo foram utilizadas em 20 dos 47 atentados catalogados e responderam por cerca de três quartos das mortes registradas.
Outro dado considerado alarmante pelas autoridades é o crescimento das ameaças virtuais contra escolas brasileiras.
Segundo pesquisa citada no documento, o número de publicações com ameaças e discursos de ódio direcionados a instituições de ensino cresceu 360% entre 2021 e 2025. Já as mensagens de exaltação a ataques passaram de 0,2% das menções monitoradas em 2021 para 21% em 2025.
Violência cotidiana nas escolas
Além dos ataques extremos, o relatório destaca o aumento da violência cotidiana dentro das escolas brasileiras.
Somente em 2024, foram registradas 14.747 notificações de violência interpessoal em instituições de ensino, além de crescimento expressivo dos casos de violência autoprovocada entre estudantes.
O boletim relaciona bullying, discriminação e violência psicológica ao risco de episódios futuros de violência extrema.
Dados citados pelo MEC mostram ainda que cerca de 40% dos estudantes brasileiros afirmam já ter sofrido bullying, enquanto apenas 37% das escolas realizam ações estruturadas de prevenção ao bullying e cyberbullying.
Outra preocupação apontada pelo relatório é a baixa presença de profissionais especializados nas escolas. Apenas 14,2% das instituições possuem psicólogos e somente 8% contam com profissionais voltados à mediação de conflitos e apoio social.
Caso do Instituto São José
O ataque ocorrido no Instituto São José, em Rio Branco, na última terça-feira (5), passou a integrar a cronologia nacional de violência extrema em escolas.
O atentado deixou mortas as funcionárias Alzenir Pereira da Silva, de 53 anos, e Raquel Sales Feitosa, de 37, que tentaram impedir o avanço do adolescente de 13 anos responsável pelos disparos.
Segundo informações divulgadas pelas autoridades, as duas perceberam o ataque e tentaram proteger estudantes e servidores da escola, mas acabaram baleadas. Outras pessoas também ficaram feridas, entre elas uma estudante.
