Há ironias que dispensam esforço literário. Elas simplesmente acontecem. No domingo (4), uma dessas ironias ganhou forma no Lago do Amor, em Rio Branco, durante um ato de solidariedade ao “povo venezuelano” promovido por organizações e movimentos sociais de esquerda. Solidariedade tão profunda que não resistiu à presença de venezuelanos de verdade.
Brasileiros — em sua maioria nascidos no Acre, longe da escassez, da hiperinflação e da fome — reuniram-se para condenar a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela e defender a soberania de um país do qual nunca precisaram fugir. O roteiro estava bem ensaiado: cartazes, palavras de ordem, ataques ao “imperialismo” e, claro, a defesa indireta de um regime que transformou um dos países mais ricos da América do Sul em um exportador de refugiados.
O problema surgiu quando Juan González e Eduvi González decidiram estragar o teatro.
Venezuelanos que vivem no Acre há cerca de oito anos, o casal interrompeu as falas para fazer uma pergunta inconveniente demais para aquele ambiente: “Tem algum venezuelano aqui?”. A resposta foi o silêncio constrangedor que costuma acompanhar verdades mal-vindas.
Eduvi, então, explicou o óbvio. Que fome não é conceito acadêmico. Que deixar a família para trás não é escolha ideológica. Que quem não sentiu a dor talvez devesse ouvir antes de discursar. Foi o suficiente para transformar a solidariedade em irritação.
Juan reforçou o ponto e acabou discutindo com uma das lideranças do ato, o professor Hildo Montezuma, ligado ao Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta Pela Paz. Ao lembrar que ninguém ali tinha legitimidade para falar em nome da Venezuela, ouviu uma resposta que resume com perfeição a contradição da cena: “Vai pros Estados Unidos”.
Sim. Um venezuelano, expulso do próprio país pela miséria produzida pelo regime chavista, foi mandado para o “império” por brasileiros que nunca passaram fome — mas se sentem confortáveis para defender ditaduras a milhares de quilômetros de distância.
Depois do pequeno tumulto, o casal se afastou. A realidade saiu de cena. O ato pôde, então, seguir em paz.
As falas seguintes retomaram o cardápio ideológico habitual: soberania, autodeterminação dos povos, críticas à prisão de Nicolás Maduro e condenação à ação ordenada por Donald Trump. Tudo muito coerente — especialmente para um campo político que integra um governo federal alinhado, sem constrangimento, a regimes como Venezuela, Coreia do Norte e Irã.
Ditaduras, nesse contexto, parecem deixar de ser problema quando ostentam o selo ideológico correto.
Nas redes sociais, representantes da esquerda acreana repetiram o discurso indignado contra a intervenção norte-americana. Nenhuma palavra sobre o narcotráfico, a repressão, os presos políticos ou os milhões de venezuelanos espalhados pela América Latina. A soberania, ao que parece, é sagrada — desde que pertença a um ditador amigo.
O ato foi anunciado como solidariedade ao povo venezuelano. Mas o episódio revelou algo mais honesto: solidariedade à narrativa. O povo, quando aparece, atrapalha.
No Lago do Amor, ficou claro que a Venezuela defendida em discursos não é a Venezuela real. É uma abstração confortável, que não passa fome, não cruza fronteiras e não interrompe manifestações para lembrar que ideologia nenhuma enche prato vazio.
*Ildo Moreira é formado em História e professor de Filosofia
