Por muito tempo, o ritmo das chuvas e dos rios ajudou a organizar a vida no Acre. As cheias aconteciam dentro de uma lógica conhecida pela população. Nos últimos anos, porém, esse padrão tem se rompido, dando lugar a eventos extremos cada vez mais frequentes e intensos.
As grandes enchentes deixaram de ser episódios isolados. Em intervalos menores, rios ultrapassam cotas históricas, atingem bairros inteiros e forçam respostas emergenciais. Ao mesmo tempo, períodos de estiagem severa também se intensificam, afetando transporte, abastecimento e a produção no interior.
Especialistas apontam que o estado já sente os efeitos de mudanças no regime climático da Amazônia Ocidental. Alterações nos padrões de chuva e no comportamento das bacias hidrográficas tornam o cenário mais instável e menos previsível.
Na prática, isso impacta diretamente o cotidiano. Em Rio Branco, famílias que vivem próximas aos rios convivem com a expectativa constante da cheia. No interior, comunidades ribeirinhas enfrentam dificuldades tanto quando a água sobe demais quanto quando falta.
O poder público atua, em grande parte, reagindo às crises, com decretos de emergência e ações pontuais. Cresce, no entanto, a avaliação de que essas medidas já não bastam diante de um fenômeno recorrente.
Além dos prejuízos materiais, há impactos emocionais. A repetição de cheias e secas gera insegurança e desgaste psicológico, especialmente entre famílias que precisam abandonar suas casas com frequência.
O porta-voz da Rede Sustentabilidade no Acre, Inácio Moreira, disse ao O Acre Agora que o desmatamento é o grande responsável por esta problemática.
“O desmatamento de 40% das matas ciliares dos rios, compromete toda a nossa bacia hidrográfica, tanto do Rio Acre, como do Igarapé São Francisco. Qualquer decisão que não seja a adaptação das pessoas ao leito do rio, ou transformando algumas construções em palafitas e, em alguns casos, retirando as pessoas, como já foi feito, quando retiraram diversas famílias para a Cidade do Povo, a tendência é piorar”, pontuou.
Inácio disse ainda que outro problema é que a limpeza e reflorestamento das margens dos igarapés é de responsabilidade das prefeituras, que, via de regra, não têm estrutura para executar essa tarefa.
“O ideal seria que tratar o Rio Acre como uma unidade só, até porque ele vai desaguando de um município para o outro e quando se trata ele em blocos, não se tem um planejamento completo de uma bacia hidrográfica dessa”, finalizou.
Diante desse cenário, a discussão sobre adaptação ganha terreno. Planejamento urbano, políticas habitacionais e infraestrutura passam a precisar considerar os extremos climáticos como parte da rotina. A pergunta sobre um “novo normal” segue aberta, mas os sinais indicam que o clima no Acre já não é o mesmo de décadas atrás.
